Minha velha negra. Finalmente. Tanto tempo após... Finalmente. Sim, finalmente. Não sei se me vês neste instante, mas eu vejo-te e por uma quarta e quinta vez suspiro finalmente. Sim, finalmente... Por ventura não me vês porque o quadro que pinto apenas te retrata a ti. Sim, penso que não me vês porque o teu olhar, embora em mim, só te espelha a ti. Tudo o que de mim sobra são as cores que te pintam a ti... Ou então, não... Vês-me e eu tenho medo? Se calhar é isso, também me vês mas o meu olhar não me permite ver... a mim? Então por que não a mim? Porquê só a ti?
Encanto não poderás ser só... Não enquanto te canto. Espanto também não... Não. És pó. És terra. És raiz de vida e no teu leito recolhes e embalas como manto o nosso prometido. Tão quente... Sim... Quase que sinto o teu ventre novamente. Ouves? Um pulsar, um ecoar, um ressoar... Aquele som outra vez. És tu a vibrar luz e não fosses tu aquela que por nome se baptiza de, e por, Luz.
Minha velha negra, que saudades tinha de te ver assim, a adoçar o nosso filho nos teus braços para uma noite de encantar. Desejo tocar-te. Desejo proteger e confortar toda a tua dedicação ao nosso filho. Amo sentir a mãe que és. Amo... Deitar-me... Sentir-me pequeno... E aninhar-me aos teus pés. De verdade Meu Amor, às minhas mãos apenas tenho os teus pés. Fortes, intensos, caminhados. Tão bonitos e tão negros; do pó, de ti... Desejo tocar-te. Em parte, também embalar-te. Mas será suficiente? Como poderei dar o tanto que tu dás ao nosso prometido? Como poderei retribuir o tanto que me dás sem sequer me dares ou me tocares a mim?
Minha preta... Por vezes sinto-me tão pouco. Não me sinto assim por de facto o ser mas por te sentir tanto. E tu és. Todo esse tanto... Olho-te agora, debaixo do teu ventre, amacio-te e curo-te o peso dos passos, pesados, de uma vida, que por tanto ter nada leve se deixou perecer. Apercebo-me que apesar de sempre me ter exposto para ti, no fundo sempre pensei que estivesse protegido.
«Sinto a tua dor...»
Sempre acreditei que só eu te via e mesmo quando levantava um pouco o que sou, apenas para adoçar a tua curiosidade e te manter comigo, pensei estar protegido. Quase invisível. Mas não. Na verdade, sempre que olhava para ti, também eu era invadido. Também tu me vias a mim... O caminho sempre foi feito em dois sentidos. Assim era. Eu ia até ti e tu vinhas até mim. E isso:
«Fascina-me mas também me assusta...»
Minha velha negra, não te dedico um canto, um pranto ou uma devoção. Apenas um pedaço de mim partiria em pedaço a verdade do tanto que desejo para ti. Matar-me-ia de saudade... E eu sou fraco. Não aguentaria a tua ausência... Dar apenas parte do meu todo é um tanto que nunca chegaria, um todo que não aguentaria. Também por isso, e arriscando dar o meu todo, arriscando perder o tudo que tenho em mim se nada quiseres de mim e me deixares cair aos teus pés, mas desta vez já sem os teus pés para mim..., fecho os olhos de cansaço e Dedico-me não em parte, mas por inteiro a ti...
«Espera! Diz-me... Vês-me agora tu a mim?»
«Espera! Diz-me... Vês-me agora tu a mim?»
