13 de setembro de 2009

O Beijo


De olhos fechados, ouvindo a voz que de lá vem, embora talvez já nem tanto do além, sinto uma vez mais o piso que, descalço por um precalço outrora mal pintado, nos  amortecia a queda. Não mais as asas nos podiam salvar, não mais o corpo nos estendia o cruel manto restrito aos puros. Estávamos sós, perdidos, e como era bom... O paraíso apontara-nos para nunca mais!
Lembro-me de ontem como do agora.
Por esta hora o espírito é vago, quase mago, e o toque, nascente, esgueira-se por correntes adversas desesperando por um copo mais. Os mares são revoltos e  arrastam-nos para lá das tormentas, para lá do prório e enregelante medo.
Mas não!
A pele que nos veste como um é ainda assim uma única manta de retalhos que nos cose os traços, em enlaços, que jamais o tempo poderá apagar. Os botões são rotas de vida, que se repetem, vida após vida, em círculos, crescentes, pelos quais ainda hoje não sei qual o melhor caminho para me desabotoar; e nem sei se quero. Estou acorrentado à sua espiral e é preso a ela que quero me entregar.
Só hoje, só aqui, e pela primeira vez - condeno-me eu -, me deixo livre com ela, em nós, no fruto que pelo sangue nos escorre. Os meus braços aquecem-se, julgando abraçá-la, mas também aqui não! Pobres, quão iludidos são... Envolvo-me nela, gato a gato, e deixo-me enrolar pelo seu aroma a mulher. 
Inspiro fundo... Uma segunda vez, uma terceira e ainda uma última, e a lembrança é irreal. O único odor que me penetra os sentidos é o mesmo de sempre. Soalho molhado, cinzeiro queimado, sonho... Abandonado.
Nunca! Nunca mais, afirmo-me agora eu. Nunca mais virarei o rosto quando ela me pedir um filho. Porque ela vai pedir. Não mais ontem, não mais hoje, mas um dia, quem sabe quando... Quem sabe já amanhã.

Pintura: Gustav Klimt