Os dias passam e por cá me mantenho, gretando nas entrelinhas e rimando nas baínhas entre as quais, eles, homens, julgam que me tocam. Observo o céu e rio de peito pequeno e corrente presa, ao centro, bem no meio do poço das emoções. E que bom que é; quão indiferente que me é.
Por esta hora em que a noite já vai longe e uns quantos já se cuspiram para aqui, sinto-me de facto limpa pois ele ainda não chegou; felizmente, e suspiro de “enfim”. Porém, a noite ainda não acabou. «Não!», e eis que o peito se aperta um pouco mais num nó que me sobe até garganta e me asfixia as esperanças na obra, e graça também, que o Espírito Santo me cortou pelo cordão à nascença.
Na verdade nem sei porque estou assim já que faz dois dias que ele não me visita; felizmente!, e suspiro então “pelo fim”. Mas com ele nunca se sabe. Eu não me posso esconder; eu preciso de comer. Qual graça, qual desgraça! É que embora o imprevisto seja certo, também é certo que não mais me apanha de sub-aviso.
O cheiro é negro, a carne é velha e usada, e nada de novo retiro daqui. É bem possível que não seja ele quem hoje me visita.
Se existe algo que o meu corpo hoje não quer, e uivo a todas as estrelas que diariamente me ignoram para que assim seja, é aquele, sim, aquele que me ama e me enche o corpo de aromas, e que ao fim da noite, após o seu clímax, me abandona sem uma única réstea de paixão. Não, hoje não quero aquele que se preocupa com o meu prazer e me adoça o desejo por uma noite mais... Não, não o quero ver! Quero aquele que me usa e mutila a carne e me cospe no saiote aquando o seu deleite. O que eu quero é ele, aquele que me foge a sete pés assim que os meus olhos o fitam verdadeiramente pela primeira vez.
Se existe algo que o meu corpo hoje não quer, e uivo a todas as estrelas que diariamente me ignoram para que assim seja, é aquele, sim, aquele que me ama e me enche o corpo de aromas, e que ao fim da noite, após o seu clímax, me abandona sem uma única réstea de paixão. Não, hoje não quero aquele que se preocupa com o meu prazer e me adoça o desejo por uma noite mais... Não, não o quero ver! Quero aquele que me usa e mutila a carne e me cospe no saiote aquando o seu deleite. O que eu quero é ele, aquele que me foge a sete pés assim que os meus olhos o fitam verdadeiramente pela primeira vez.
E é em desespero que olho para as estrelas e gemo, também aqui pela primeira vez:
«Ó mãe, se assim me vês... Uivo-te pelo vulgar, suave, que me verá como eu não sou e me violará como se eu fosse somente mais uma mulher. Imploro-te para que assim seja, e que bom que será se assim for. Ó mãe, se assim me vês... Uivo-te por aquele que me rasga a carne com os seus dentes sangrentos mas não me toca nem por uma vez. Por favor mãe, imploro-te se assim me vês... Uivo-te por mais uma noite descansada onde poderei, por fim, dormir, longe e livre das memórias de um amor eternamente perdido...»
«Ó mãe, se assim me vês... Uivo-te pelo vulgar, suave, que me verá como eu não sou e me violará como se eu fosse somente mais uma mulher. Imploro-te para que assim seja, e que bom que será se assim for. Ó mãe, se assim me vês... Uivo-te por aquele que me rasga a carne com os seus dentes sangrentos mas não me toca nem por uma vez. Por favor mãe, imploro-te se assim me vês... Uivo-te por mais uma noite descansada onde poderei, por fim, dormir, longe e livre das memórias de um amor eternamente perdido...»
Ouves-me céu?
Ouve-me céu, ouve-me!
Ouve-me tu que já nem a a minha mãe tenho para me ouvir...
Pintura: Paula Rego

