17 de setembro de 2009

Uivando



Os dias passam e por cá me mantenho, gretando nas entrelinhas e rimando nas baínhas entre as quais, eles, homens, julgam que me tocam. Observo o céu e rio de peito pequeno e corrente presa, ao centro, bem no meio do poço das emoções. E que bom que é; quão indiferente que me é.
Por esta hora em que a noite já vai longe e uns quantos já se cuspiram para aqui, sinto-me de facto limpa pois ele ainda não chegou; felizmente, e suspiro de “enfim”. Porém, a noite ainda não acabou. «Não!», e eis que o peito se aperta um pouco mais num nó que me sobe até garganta e me asfixia as esperanças na obra, e graça também, que o Espírito Santo me cortou pelo cordão à nascença.
Na verdade nem sei porque estou assim já que faz dois dias que ele não me visita; felizmente!, e suspiro então “pelo fim”. Mas com ele nunca se sabe. Eu não me posso esconder; eu preciso de comer. Qual graça, qual desgraça! É que embora o imprevisto seja certo, também é certo que não mais me apanha de sub-aviso.
O cheiro é negro, a carne é velha e usada, e nada de novo retiro daqui. É bem possível que não seja ele quem hoje me visita.
Se existe algo que o meu corpo hoje não quer, e uivo a todas as estrelas que diariamente me ignoram para que assim seja, é aquele, sim, aquele que me ama e me enche o corpo de aromas, e que ao fim da noite, após o seu clímax, me abandona sem uma única réstea de paixão. Não, hoje não quero aquele que se preocupa com o meu prazer e me adoça o desejo por uma noite mais... Não, não o quero ver! Quero aquele que me usa e mutila a carne e me cospe no saiote aquando o seu deleite. O que eu quero é ele, aquele que me foge a sete pés assim que os meus olhos o fitam verdadeiramente pela primeira vez.
E é em desespero que olho para as estrelas e gemo, também aqui pela primeira vez:
«Ó mãe, se assim me vês... Uivo-te pelo vulgar, suave, que me verá como eu não sou e me violará como se eu fosse somente mais uma mulher. Imploro-te para que assim seja, e que bom que será se assim for. Ó mãe, se assim me vês... Uivo-te por aquele que me rasga a carne com os seus dentes sangrentos mas não me toca nem por uma vez. Por favor mãe, imploro-te se assim me vês... Uivo-te por mais uma noite descansada onde poderei, por fim, dormir, longe e livre das memórias de um amor eternamente perdido...»
Ouves-me céu?
Ouve-me céu, ouve-me!
Ouve-me tu que já nem a a minha mãe tenho para me ouvir...


Pintura: Paula Rego

13 de setembro de 2009

O Beijo


De olhos fechados, ouvindo a voz que de lá vem, embora talvez já nem tanto do além, sinto uma vez mais o piso que, descalço por um precalço outrora mal pintado, nos  amortecia a queda. Não mais as asas nos podiam salvar, não mais o corpo nos estendia o cruel manto restrito aos puros. Estávamos sós, perdidos, e como era bom... O paraíso apontara-nos para nunca mais!
Lembro-me de ontem como do agora.
Por esta hora o espírito é vago, quase mago, e o toque, nascente, esgueira-se por correntes adversas desesperando por um copo mais. Os mares são revoltos e  arrastam-nos para lá das tormentas, para lá do prório e enregelante medo.
Mas não!
A pele que nos veste como um é ainda assim uma única manta de retalhos que nos cose os traços, em enlaços, que jamais o tempo poderá apagar. Os botões são rotas de vida, que se repetem, vida após vida, em círculos, crescentes, pelos quais ainda hoje não sei qual o melhor caminho para me desabotoar; e nem sei se quero. Estou acorrentado à sua espiral e é preso a ela que quero me entregar.
Só hoje, só aqui, e pela primeira vez - condeno-me eu -, me deixo livre com ela, em nós, no fruto que pelo sangue nos escorre. Os meus braços aquecem-se, julgando abraçá-la, mas também aqui não! Pobres, quão iludidos são... Envolvo-me nela, gato a gato, e deixo-me enrolar pelo seu aroma a mulher. 
Inspiro fundo... Uma segunda vez, uma terceira e ainda uma última, e a lembrança é irreal. O único odor que me penetra os sentidos é o mesmo de sempre. Soalho molhado, cinzeiro queimado, sonho... Abandonado.
Nunca! Nunca mais, afirmo-me agora eu. Nunca mais virarei o rosto quando ela me pedir um filho. Porque ela vai pedir. Não mais ontem, não mais hoje, mas um dia, quem sabe quando... Quem sabe já amanhã.

Pintura: Gustav Klimt