9 de novembro de 2009

O Repouso



Se há tempos que me voam para longe e me deixam para trás, bem para trás, com aquele estranho e suspirante aperto de saudades, são aquelas tardes, distantes, que pareciam não ter uma hora marcada para terminar ou uma despedida por anunciar. Por essa altura, em que o prazer era duradouro e as expectativas eram todas palpáveis, eu vivia descançado e entregava-me ao momento como se o amanhã fosse uma realidade demasiado desconhecida para um dia se poder tornar verdade em mim. E não é que era mesmo?
«Não.»
Os dias passaram, as tardes também, e eu fiquei-me, por aqui, enterrado nas sensações que só uma mente ausente de pensamentos consegue auferir a baixo custo. E lá se foram elas então, as tardes - malditas! -, com o vazio que o aconchego do teu colo me deixou. E com elas, não me canso de as apontar, também tu foste de lenço hasteado em «aDeus» deixando-me pela primeira com a eterna questão: será a ele que hoje entregas toda a doçura daquelas tardes?
Com a viagem que há muito tempo tinhas marcado, levaste-me a segurança e deixaste-me livre, ao sabor do vento, por vezes com frio e sem saber onde me refugiar; naquelas tardes eu sabia sempre onde te procurar... Lembraste? «Não.» me respondes, não podes, eu sei, mas eu lembro-me, bem aqui, no centro do meu coração, onde ficarás eternamente enquanto eu existir, enquanto em mim houver mente, enquanto em vida residir. Chega-me esta para eu poder sorrir.
E é essas tardes que quero repetir, com aquele sorriso interno - terno! -, com certeza já não contigo, talvez já não tão distante ou saudoso, mas com certeza num igual momento em que o aconchego já não morará no colo que o meu corpo precisa para brincar mas no embalo que o meu corpo tem para oferecer num pequeno respirar... Fundo.
Agora é a minha vez de me entregar, tal como a tua mãe fez contigo e tu fizeste comigo; agora é a minha vez de embalar, fortalecendo nas mágoas e amortecendo nas vitórias, sendo um pouco mais tu e eu, e porque não, sendo um pouco mais de mim para... e até... Ti.  


Pintura: William Bouguereau

29 de outubro de 2009

A Passeata



Por mais apaixonante que os seus olhos fossem, ou me chamassem, a minha visão envolvida por igual calor não podia de forma alguma responder, nem ao ritmo do tango que tocava sempre e sem cessar, aos odores que os nossos poros emanavam apenas na presença um do outro. O ataque químico era demasiado veloz para que tivessemos tempo de descobrir um qualquer anti-veneno que nos pudesse salvar desta paixão certa, por certo, quase desperta para a morte, e as correntes eram demasiamos poderosas para que conseguissemos cruzar todo o prado, na direcção um do outro, no cruzamento dos nossos sentidos que eram contrários mas que se tocavam, exactamente ali, no destino.
Ao fundo do horizonte, bem perto dos meus desejos, sempre que ela aparecia também ele se revelava, brincalhão e dançante como o meu sonho, mas demasiado distante para que também ele pudesse ser algo mais do que uma vontade, um filho de verdade.
E eu por aqui ficava. Olhando-a ao longe, temendo um toque do qual não pudesse fugir; jamais... Era desejo deserto, decerto, mas não só. Era amor porque só o amor me abre assim o peito, só o amor me faz respirar assim fundo, bem de dentro, do interior de mim, de onde vim, novamente, como se a dor nunca me tivesse perseguido e fechado numa concha perdida no fundo das lembranças mais belas da vida, novamente, temendo eu se para sempre...
Vendo-a apenas como uma imagem indefinida, cravo na folha todo este ímpeto de amar. Afundo a ponta do carvão, trespassando o papel de um lado ao outro já que não tenho coragem de furar a minha própria pele, que sem ela, é apenas mais uma, sem sabor, sem brilho, sem mel; e como covarde que sou, finjo acreditar que desta forma estaremos juntos, para lá do desejo, exactamente no ponto onde se forma o amor em apenas um segundo, no mais louco beijo.


Pintura: Claude Monet

17 de setembro de 2009

Uivando



Os dias passam e por cá me mantenho, gretando nas entrelinhas e rimando nas baínhas entre as quais, eles, homens, julgam que me tocam. Observo o céu e rio de peito pequeno e corrente presa, ao centro, bem no meio do poço das emoções. E que bom que é; quão indiferente que me é.
Por esta hora em que a noite já vai longe e uns quantos já se cuspiram para aqui, sinto-me de facto limpa pois ele ainda não chegou; felizmente, e suspiro de “enfim”. Porém, a noite ainda não acabou. «Não!», e eis que o peito se aperta um pouco mais num nó que me sobe até garganta e me asfixia as esperanças na obra, e graça também, que o Espírito Santo me cortou pelo cordão à nascença.
Na verdade nem sei porque estou assim já que faz dois dias que ele não me visita; felizmente!, e suspiro então “pelo fim”. Mas com ele nunca se sabe. Eu não me posso esconder; eu preciso de comer. Qual graça, qual desgraça! É que embora o imprevisto seja certo, também é certo que não mais me apanha de sub-aviso.
O cheiro é negro, a carne é velha e usada, e nada de novo retiro daqui. É bem possível que não seja ele quem hoje me visita.
Se existe algo que o meu corpo hoje não quer, e uivo a todas as estrelas que diariamente me ignoram para que assim seja, é aquele, sim, aquele que me ama e me enche o corpo de aromas, e que ao fim da noite, após o seu clímax, me abandona sem uma única réstea de paixão. Não, hoje não quero aquele que se preocupa com o meu prazer e me adoça o desejo por uma noite mais... Não, não o quero ver! Quero aquele que me usa e mutila a carne e me cospe no saiote aquando o seu deleite. O que eu quero é ele, aquele que me foge a sete pés assim que os meus olhos o fitam verdadeiramente pela primeira vez.
E é em desespero que olho para as estrelas e gemo, também aqui pela primeira vez:
«Ó mãe, se assim me vês... Uivo-te pelo vulgar, suave, que me verá como eu não sou e me violará como se eu fosse somente mais uma mulher. Imploro-te para que assim seja, e que bom que será se assim for. Ó mãe, se assim me vês... Uivo-te por aquele que me rasga a carne com os seus dentes sangrentos mas não me toca nem por uma vez. Por favor mãe, imploro-te se assim me vês... Uivo-te por mais uma noite descansada onde poderei, por fim, dormir, longe e livre das memórias de um amor eternamente perdido...»
Ouves-me céu?
Ouve-me céu, ouve-me!
Ouve-me tu que já nem a a minha mãe tenho para me ouvir...


Pintura: Paula Rego

13 de setembro de 2009

O Beijo


De olhos fechados, ouvindo a voz que de lá vem, embora talvez já nem tanto do além, sinto uma vez mais o piso que, descalço por um precalço outrora mal pintado, nos  amortecia a queda. Não mais as asas nos podiam salvar, não mais o corpo nos estendia o cruel manto restrito aos puros. Estávamos sós, perdidos, e como era bom... O paraíso apontara-nos para nunca mais!
Lembro-me de ontem como do agora.
Por esta hora o espírito é vago, quase mago, e o toque, nascente, esgueira-se por correntes adversas desesperando por um copo mais. Os mares são revoltos e  arrastam-nos para lá das tormentas, para lá do prório e enregelante medo.
Mas não!
A pele que nos veste como um é ainda assim uma única manta de retalhos que nos cose os traços, em enlaços, que jamais o tempo poderá apagar. Os botões são rotas de vida, que se repetem, vida após vida, em círculos, crescentes, pelos quais ainda hoje não sei qual o melhor caminho para me desabotoar; e nem sei se quero. Estou acorrentado à sua espiral e é preso a ela que quero me entregar.
Só hoje, só aqui, e pela primeira vez - condeno-me eu -, me deixo livre com ela, em nós, no fruto que pelo sangue nos escorre. Os meus braços aquecem-se, julgando abraçá-la, mas também aqui não! Pobres, quão iludidos são... Envolvo-me nela, gato a gato, e deixo-me enrolar pelo seu aroma a mulher. 
Inspiro fundo... Uma segunda vez, uma terceira e ainda uma última, e a lembrança é irreal. O único odor que me penetra os sentidos é o mesmo de sempre. Soalho molhado, cinzeiro queimado, sonho... Abandonado.
Nunca! Nunca mais, afirmo-me agora eu. Nunca mais virarei o rosto quando ela me pedir um filho. Porque ela vai pedir. Não mais ontem, não mais hoje, mas um dia, quem sabe quando... Quem sabe já amanhã.

Pintura: Gustav Klimt