22 de junho de 2010

Uma história infindável

E assim ele fechava o livro cujo título anunciava uma «História Infindável». Mera parábola. As folhas não se multiplacaram e as vivências não se repetiram. Poderia até haver semelhanças com outros momentos do passado, mas retornar, jamais; nada volta a ser o que um dia já foi...
Sobre a contra-capa as lágrimas pingavam, meio despidas meio despedidas, mas no interior um desejo imenso de voltar o livro e recomeçar do prefácio caía sobre os olhos como uma névoa pesada que o levava a crer não poder mais. A noção da realidade era o seu maior atrito. Porque motivo haveria de voltar atrás? Nada volta a ser como um dia já foi...
Ao reler, as imagens dos lugares até podem ser mais ricas, com certeza que terão maior detalhe, e uma simples tarde chuvosa já não será somente uma simples tarde chuvosa. Uma simples tarde chuvosa, vivida uma segunda vez, será uma simples tarde chuvosa em que as gotas da chuva ao embaterem sobre as folhas secas do chão ganham som e ritualizam a alma, aprofundando-a até ao seu mais próprio eu. Mas uma simples tarde chuvosa, vivida uma segunda vez, já não será só uma simples tarde chuvosa, mesmo com todo o encanto que uma simples tarde chuvosa com som possa ter. Se assim não fosse, onde estaria a graça daquela simples tarde chuvosa que só por ser surpresa se tornou misteriosa e muito mais saborosa?
Olhando uma vez mais a contra-capa como quem procura por um motivo para não partir, ele não percebe se aquilo que mais lhe dói é a saudade da história que acabara de acabar ou a completa ausência de vontade de começar a ler algo novo... Um novo primeiro capítulo? Uma nova personagem principal? Um novo enredo? Uma nova simples tarde chuvosa? «Porquê? Não!»
Revendo o apreendido, mais do que respostas, esta história deixou-lhe questões... E é aí que provavelmente estará a confusão; por ventura o problema nem está na questão mas sim na solução. Conseguirá ele vê-la verdadeiramente? Talvez o não conseguir retornar à primeira página ou partir para uma segunda leitura nem seja o problema. Talvez se ele percebesse se deseja viver a paixão pelo amor ou o amor pela paixão tudo fosse mais fácil de descodificar... Mas será ele capaz de o encaixar?
A história que se dizia infindável não deixou uma história sem fim por contar mas dores por sarar... Se reler a história será que irá descobrir porque motivo se declara «eu amo-te» e se grita «eu odeio-te»? Se antes não conseguiu desvendar o enlace, conseguirá agora perceber porque se pede delicadamente para alguém ficar e se exige com todas as forças para que ela parta? Irá ele perceber? E assim olha para a contra-capa à espera de uma resposta... Será que só o livro que lhe levanta a discussão lhe poderá devolver a solução? Se assim for, antes da simples tarde chuvosa passar a ter som, será que ainda vai a tempo de descobrir porque motivo as personagens orgulhosamente se amavam mas só quando se odiavam se sabiam exprimir com orgulho?
E por esta hora a hora já vai longa e ele não terá tempo para reler tudo uma outra vez... Os olhos não deixam; de paciência não se fazem ver. Se por ventura se deixar repousar sobre a contra-copa, deitando o rosto sobre ela e fazendo dela a fronha da sua almofada, talvez a noite lhe devolva a resposta que lhe é devida por direito. Afinal, é esse o seu maior sonho para o sonho que tanto deseja para esta noite, nem que seja só para esta noite: «Uma simples tarde chuvosa» onde possa ser somente feliz...