14 de agosto de 2006

Olhando a mão...

... vejo os traços de homem com que nasci,
mas agora, ao ouvi-los conversar entre si,
vejo que uma mulher fala por mim.
Será que alguém ouve traços delicados?

12 de agosto de 2006

Falta mais alguém?

(...)

Tenta abrir entusiasmado a porta mas esta está perra. Empurra-a e puxa-a enquanto roda a chave na fechadura mas não há forma dela se abrir. Quando dá indicios de irritação, lembra-se do que aprendera hoje e acalma-se. Senta-se no chão de costas para a porta e observa o árido campo que o rodeia. A imagem é de tal forma seca que a sede aumenta drasticamente. Desesperado crava os dentes nos lábios gretados com esperança de que o sangue, por pouco que seja, o possa saciar.
«Eu tenho a chave, a chave tem-me a mim, o que me falta então para conseguir abrir a porta?», grita internamente. E subitamente, ecoando do nada, uma voz responde:
- Perguntar à porta se podemos entrar.
Em espasmo, levanta-se. Estará em delírio?
«Quem fala?»
Silêncio.

(...)

Era a chave.

(...)

9 de agosto de 2006

Já somos anti-acção...

... ou será que ainda vamos a tempo de ver?
A praga não está nos infímos
que aqui e ali se descobrem nos microscópios...
A praga está naquele que não tem predador
e que dia após dia age como dono único e senhor:
eu, tu, nós.
Por vezes sinto que não somos dignos da existência.
Quantos nos sentiremos envergonhados?

8 de agosto de 2006

Respeitar o espaço...

... Deveria ser o acto de sair de casa à hora marcada
deixando a porta aberta para quem quizesse entrar.
Não deveria haver tesouros incobertos.
Não é essa a minha liberdade.

7 de agosto de 2006

Ser corajoso...

É saber viver a vida ainda em vida.
Qual o porquê de tanto desejo em renascer?
A morte não merece tal desprezo.

6 de agosto de 2006

Vadia...

... por que me beijaste assim se não me amavas?
Todos me diziam mas eu nada via.
Como poderia?
Os teus lábios eram tudo o que eu queria...
E se eu te perdoar?
E se eu aceitar que sejas doutro homem também?
Voltas?
Quão idiota fui, acreditar-te só para mim...
Tu és de todos,
tu és de ninguém...
Mas ainda assim... Eu quero-te!
E agora? É tarde? Demais?
Eu quero mais, sim!
Eu não quero ser igual aos demais...
Preciso de ti.
Pxiu...
Estás aí?
Pxiu...
Ainda estás aí?
Imaginação?

A cadeira...

Nunca disse quem é que nela se poderia sentar,
o homem é que tem o hábito e a arrogância de a reservar.

Diz o tecto...

... Que para uma formiga o horizonte começa bem abaixo do meu calcâneo.
Se assim é, porque razão continuo a procurar o horizonte tão próximo do céu?

5 de agosto de 2006

Querer viver...

... Leva-me a crer que este verão terei de ficar em casa
para tentar saborear o gélido da solidão do Verão.
Será que a vontade de no Inverno que vem
ter um pouco de calor em oposição à dor
me leva ao desejo da loucura?

Não tem nome...

... É apenas uma borboleta.
E eu?
Não posso também ser só um humano?

Pela fé sei...

... que nunca estou só.
Dentro do barco tenho sempre os remos.